terça-feira, 12 de abril de 2016

Desrelacionamento

(Cena do filme Eyes Wide Shut)

A formalidade moral é a base de um aparente elo conjugal. O teatro de felicidade e sucesso também servem (e até, aparentemente, sustenta) a "relação", mas nada disso desmistifica a infelicidade de estar por estar de cada conjugue. "Estamos bem, graças a Deus!" é o que dizem quando não se tem mais o que se compartilhar, tão pouco sustentar, juntos. Um status virtual, uma aliança, um documento assinado pelos dois, um mesmo teto para dividir, um mesmo carro para compartilhar, o mesmo filho para gerar, a mesma conta para se administrar, a mesma vida para se viver, juntos. São "considerações" e maneiras de tentarem se prender, ou relacionarem o que nunca se relacionou. Entendendo que nada disso elimina, nem eliminará o fato de que, mesmo juntos - aparentemente juntos - não existe relação, não existe felicidade, mas um teatro, um disfarce, uma TRADIÇÃO pra se sustentar. Em meio a toda essa frenética e desordenada dança, dois indivíduos se destroem, dia após dia, crentes de que o amor é essa simbólica mistura de ciúmes, desconfiança, dor e sofrimento.

É assim que a gente faz quando não entendemos o que é estar só. É assim que a gente age quando achamos que estamos preparados para a vida. É assim que a gente age quando não conhecemos nem a nós mesmos.

No final das contas, grande parte do sofrimento humano é o mais puro e perturbante medo de lidar, dia após dia, consigo mesmo.